O Intermitente<br> (So long, farewell, auf weidersehen, good-bye)

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quinta-feira, novembro 13, 2003

A Herança de Cunhal

Do artigo de Pacheco Pereira no Público

[E]ntre 1960 e 1985 (onde, na campanha presidencial da primeira volta, o PCP jogou o seu último combate sério de regime), o PCP de Cunhal esteve no centro dos acontecimentos. Poder-se-ia, caso não houvesse guerra colonial, fazer uma transferência de poder da ditadura para a democracia, mais ou menos ao modelo espanhol, pactada e dirigida pelos sectores mais moderados do Governo e da oposição? Talvez, mas a resposta é do domínio da ficção e não da história. A comparação com Espanha é enganadora, até porque a transição espanhola deve muito aos acontecimentos portugueses, àquilo que os espanhóis aprenderam com o 25 de Abril e o PREC e quiseram evitar.
O que nós sabemos é que as coisas foram como foram. Sabemos que um pequeno partido clandestino, forjado pelo pensamento político e organizativo de Cunhal (isso é indesmentível, mesmo que Cunhal partilhe com alguns outros a "fábrica" do PCP), teve capacidade de ultrapassar a crise que o ameaçava em vésperas do 25 de Abril, e tomar conta do aparelho sindical, de grande parte das municipalidades, de sectores cruciais nas forças armadas, e moldar um curso político sem paralelo na Europa desde o imediato pós-guerra. Derrotado em Novembro de 1975, o PCP colocou o país numa situação a um milímetro da guerra civil e da confrontação militar. A extrema-esquerda desajudou e foi um empecilho maior, obrigando o PCP a sair da táctica da "ronha", que Cunhal expôs num discurso parcialmente secreto ao comité central em Agosto de 1975, e que este preferia mil vezes ao confronto directo. Mas que, medido tudo, se esteve no limiar da guerra civil, lá isso esteve.
O impacto do PREC ainda hoje tem ecos no sistema político e económico português, desde as nacionalizações e a "reforma agrária", que são marcos da nossa organização económica e criaram bloqueios que atrasaram a consolidação da combinação democracia-economia de mercado (capitalismo). Muita coisa que o PCP conseguiu incluir na Constituição, e de que hoje o PS é guardião, também moldou a nossa variante peculiar de "socialismo". Bloqueios políticos e institucionais, que serviam e servem de travões a políticas reformistas que mexem com os interesses do PCP, ainda hoje estão em vigor.
Sabemos também que esse partido e Cunhal à frente pôde condicionar o processo de descolonização, com a entrega do poder político nas colónias a movimentos e personalidades marxistas e comunistas, algumas das quais, como Agostinho Neto, tinham militado nas suas organizações. Só esse impacto de natureza global, e vastas consequências na história africana, em particular no Sul da África, daria ao PC (e Cunhal) um papel ímpar na nossa história contemporânea. O caso de Angola, onde a actuação do PCP foi mais profunda, onde o próprio MPLA nasceu do seu seio, onde a "partnership" PCP-PCUS foi mais longe, redundou na tragédia da guerra civil.
No plano da história do movimento comunista, Cunhal tem assim um papel fundamental e um "sucesso revolucionário" certamente superior ao de Thaelmann, Thorez e Ibarruri, a "Passionária". E, se compararmos Cunhal com outros dirigentes políticos portugueses do século XX, no seu impacto nacional e internacional, apenas Salazar (com a longa ditadura e a resistência à colonização), o tandem Mário Soares- Sá Carneiro (na vitória democrática contra o PREC) podem ombrear com a tentativa revolucionária de Cunhal em Portugal (o PREC) e a "descolonização exemplar".
Não interessa saber se concordamos, gostamos ou odiamos Cunhal e a sua obra, o que não se pode é, em função dessa subjectividade, negar a sua importância histórica

posted by Miguel Noronha 12:29 da tarde

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